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Cidade Digital


Evandro Prestes Guerreiro

Doutor e Mestre pela PUC-SP. Cientista Social. Psicopedagogo, Psicanalista lacaniano e coordenador de Grupo Operativo. Autor de diversos livros, entre eles: Cidade Digital - Infoinclusão Social e Tecnologia em Rede, pela editora Senac-SP (2006).


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Publicado: Segunda-feira, 13 de março de 2006

Sensação de 40º no digital e 24hs no eletrônico

Às onze horas e quarenta minutos, o relógio digital na calçada da praia, registrava 34o. A sensação térmica era de 40o. Estava muito quente para aquela manhã de verão, mas, isto é somente um detalhe no litoral brasileiro. Na Baixada Santista, a temperatura no inverno chega aos 15o em média, o que não era o caso naquele dia. A senhora já estava há 15 minutos no quiosque do Banco 24 horas e eu precisava sacar dinheiro de minha conta corrente. Meu banco não possui uma rede física universalizada de agências, como a maioria dos bancos varejistas no Brasil, que é um dos primeiros países do mundo a possuir sua rede bancária presente em todos os 5.561 municípios brasileiros (IBGE, Censo 2000). Vejam lá, estava eu na frente de um destes bancos virtuais.

Você não deve gostar de engolir sapos e eu também não (e talvez, na atualidade, minha garganta seja mais estreita, quem sabe por eu ter decidido em 08 de julho de 2005, parar de fumar). Pense comigo: como é possível estar presente universalmente? Respondo-lhe: somente sendo onipresente, ser Deus, no sentido do arquétipo e não da religião doutrinária. Outra possibilidade que me ocorre, seria possuir um clone. Sendo clone, estaria me desdobrando, me tornaria um em dois ou seria dois em um? Parece muito caro, dobra o valor.

Sistematicamente, o banco desconta no extrato de minha conta corrente, um valor que varia entre R$ 1,70 e R$ 2,40. Além de pagar mensalmente algo entorno de R$ 13,00 pela manutenção da conta corrente, o que é justo, uma vez que o banco guarda meu dinheiro, me oferece uma segurança e não preciso me preocupar com roubo. Pagando incluo a proteção contra perdas e, também, desconto pelo serviço sobre a operação financeira no banco 24 horas. Que culpa tenho se a rede física do meu banco fica somente na avenida paulista? Problema para o gerente resolver e não para mim ou estou enganado? Troco meu dinheiro por um serviço, nada de extraordinário, mas, quando desconto duas vezes por usar minha conta corrente no banco 24 horas, não seria um ganho indevido? Uma sobretaxa? Uma redundância? Meus pensamentos estavam pegando fogo, literalmente.

O calor ficava mais sufocante. Uma insistente brisa quente e úmida alternava a sensação e o humor. A senhora permanecia confortavelmente dentro do quiosque, que pela temperatura externa, devia estar uns 15o lá dentro e aquele agradável ambiente de primavera. O vidro da porta ficava embaçado, parecia o vidro de um freezer. Ela passou o cartão magnético, colocou a mão dentro da bolsa e tirou os óculos. Colocou no rosto e procurou ler o que estava escrito na tela do computador, imaginava. Ela olhava o teclado e começava a movimentar os dedos para digitar sua senha pessoal e acessar a conta bancária. Estava com os olhos fixos na tela do computador. Na conta de minha paciência fazia uma hora que estava dentro do quiosque vermelho. Na verdade, conferi no relógio digital da praia, passou-se somente um minuto.

Acreditava que a escolha da cor vermelha do quiosque era a partir da idéia de socorro ou ajuda a qualquer hora do dia e da noite. Estava enganado, o vermelho pode ser do corpo de bombeiros, este profissional é qualificado para apagar incêndios ou resolver problema que coloca a vida em perigo. É como o guarda-vidas, que fica trabalhando na<