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Doutor e Mestre pela PUC-SP. Cientista Social. Psicopedagogo, Psicanalista lacaniano e coordenador de Grupo Operativo. Autor de diversos livros, entre eles: Cidade Digital - Infoinclusão Social e Tecnologia em Rede, pela editora Senac-SP (2006).
Naquele dia eu precisava estar em uma reunião às nove horas e não poderia chegar fora do horário. A cidade não dorme, principalmente em vias como a avenida Francisco Matarazzo, na região oeste de São Paulo. O trânsito já estava sufocante, barulhento e estressante. As pessoas caminhavam freneticamente e já anunciavam mais um dia de agitos e corre-corre. Também deixavam no ar uma atmosfera de “alívio”, como se escapassem de uma prisão densamente povoada em um espaço minúsculo. Em 2015 a densidade demográfica da cidade de São Paulo chegará em torno de 20,4 milhões de pessoas, tornando-se a 5a cidade mais populosa do mundo, segundo estimativa da ONU, em seu relatório de Desenvolvimento Humano de 2002.
O sol brilhava incrivelmente, como mostravam as sombras deixadas pelos prédios, em parte da sacada de meu apartamento. A luz do dia era “cortada” pelas coberturas de cada um dos edifícios, formando figuras e contornos alternados no espaço. Percebia uma corrente de vento que ora ficava mais densa, ora mais suave. As informações se propagam no espaço por meio de ondas que se alternam em movimentos de sinais mais intensos e menos intensos, porém, desordenados. É preciso que uma sintonia localize e integre no hiperespaço, a mensagem codificada por sinais e, na seqüência, a comunique para o seu destinatário. Seria um espectro carregado de informações aquela corrente de ar?
Minha gravata me sufocava enquanto bebia uma xícara de café com leite. Pela manhã quando acordo, algo que não gosto muito de ter como rotina, preciso fazer esta primeira refeição do dia, caso contrário, tenho enxaqueca por volta das dezessete ou dezoito horas; fico insuportável quando isto ocorre. Não consigo ficar tranqüilo no café da manhã, quando preciso chegar na hora pontual. Sinto-me como se estivesse em uma camisa de força me aprisionando na “matrix” da não mudança. Liguei o ventilador na tomada da sala e o voltei para minha direção, procurando afastar a ansiedade.
Peguei minha pasta, abri e conferi detalhadamente os documentos que havia conferido na noite anterior. Coloquei o terno, desliguei o ventilador, observei se havia água e comida para meu animal de estimação, fiz um carinho em sua cabeça e me despedi até a volta. As chaves do carro estavam em meu bolso, carteira de documentos também. Abri a porta e, mesmo ainda sem a fechar, segurando com a perna para não bater, apertei o botão para chamar o elevador e percebi que a luz não havia acendido. Pensei, enquanto fechava a porta do apartamento, vou pelo elevador de serviços, este deve estar em manutenção, mas justamente hoje decidem fazer serviço no elevador? Mas, pode ter acontecido uma falha mecânica, por outro lado, se ocorreu algo assim é por não terem feito uma boa manutenção. Decididamente, eu estava ansioso. Como a luz do décimo primeiro andar estava acesa, não poderia pensar em outra coisa. Caminhei para o elevador de serviços e quando levantei o dedo para apertar o botão, parecia que algo me dizia diferente das deduções que fiz anteriormente.
Confirmei a sensação: a luz que acende quando se aperta o botão, não correspondeu ao meu toque. Comecei a suar frio quando isto ocorreu. Senti que minha pulsação se alterou sensivelmente. Comentei em voz alta: Não acredito, somente comigo isto acontece. Faltou energia.