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Doutor e Mestre pela PUC-SP. Cientista Social. Psicopedagogo, Psicanalista lacaniano e coordenador de Grupo Operativo. Autor de diversos livros, entre eles: Cidade Digital - Infoinclusão Social e Tecnologia em Rede, pela editora Senac-SP (2006).
Via-me no estacionamento, caminhando em direção à minha vaga. Meu carro estava na mesma maneira que havia parado na noite anterior. Na garagem do prédio em São Paulo, o condomínio instalou seis câmeras tornando o pátio totalmente vigiado eletronicamente. Do elevador até o carro, minha imagem poderia ser capturada por diversas vezes, em diferentes formas e múltiplos movimentos. Claro, mas, quando tiver energia. Agarrei-me mais fortemente no metal da sacada. Por um momento, olhando daquela altura, havia desejado estar lá embaixo. Por outro lado, estar lá naquele instante, somente voando , descendo pelo elevador ou usando a escada . Preciso descer vinte e dois lances até o térreo. Melhor isto que ser prisioneiro da tecnologia. Havia esquecido a escada de emergência e, como meu apartamento estava no décimo primeiro piso, em prédio de quatorze andares, precisava decidir: caminhava para cima ou começava a descer.
Vinte e dois lances? Moleza! Pensei convicto. Meu celular já marcava oito horas e vinte e cinco minutos no visor. Consciente de mim, sintonizado com a falta de energia na maior e mais populosa cidade brasileira, fui para a porta. São Paulo é assim mesmo, tudo é medido por uma escala maior que qualquer outra que conhecemos na atualidade, incluindo o ciberespaço. Saindo de meu apartamento, por volta das dezessete horas de segunda a sexta feira, usando a Marginal Tietê, por cerca de quatro ou cinco pontes sobre o rio, no máximo. Para percorrer trinta quilômetros , são quase cem minutos ou pouco mais de uma hora e meia, em primeira e segunda marcha no carro. Trabalhando na Baixada Santista, descendo pela mais moderna rodovia do Brasil, a Imigrantes, saindo de São Paulo, em velocidade abaixo de cento e vinte quilômetros por hora, até chegar em Santos, são sessenta minutos no máximo de viagem, percorrendo aproximadamente setenta quilômetros .
O urbanista europeu, Manuel da Costa Lobo, que escreveu o prefácio de meu livro Cidade Digital – Infoinclusão Social e Tecnologia em Rede , publicado pela editora Senac (2006) e lançado oficialmente na 19a Bienal do livro de São Paulo, denomina este fenômeno de super pé . Acho até que o paulistano descobriu este fenômeno bem antes dele, pois, sempre ouvi o ditado popular a respeito do paulistano: ” tira uma tonelada da garagem para comprar um quilo ”.
Despedi-me novamente de meu cão, fechei a porta do apartamento e fui para a escada. No visor do meu celular, havia passado mais cinco minutos. Agora, marcava oito horas e trinta minutos. Comecei a descer rapidamente cada lance da escada e, em menos de sete minutos, já estava abrindo a porta do subsolo e andando com passos largos para o carro. Entrei rapidamente no carro. Liguei o motor, coloquei o cinto de segurança, desengatei o freio de mão e coloquei o carro em movimento. Os faróis acenderam automaticamente, dado o sensor existente. Abri o vidro elétrico e fui parando o carro até alcançar com meu braço, o botão que aciona o portão elétrico do estacionamento. Nada. O botão estava desligado. O portão continuou fechado. Estava cansado, sem energia e a respiração estava acelerada em função dos vinte e dois lances de escada que desci. Progressivamente fui relaxando e meu corpo foi ficando leve. A respiração foi desacelerando.
Comecei a gargalhar sem parar. Estava preso e teria que aguardar a volta da energia ou até o funcionário do condomínio vir abrir manualmente o portão.<