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Doutor e Mestre pela PUC-SP. Cientista Social. Psicopedagogo, Psicanalista lacaniano e coordenador de Grupo Operativo. Autor de diversos livros, entre eles: Cidade Digital - Infoinclusão Social e Tecnologia em Rede, pela editora Senac-SP (2006).
Enquanto tentava me concentrar na reportagem que passava no telejornal das treze horas, minha lembrança insistia em me levar para o dia em que precisei recorrer à sorte, para contornar uma situação de conflito físico entre o movimento estudantil e a polícia, meado da década de 80, em Belém, estado do Pará, na Amazônia brasileira. Nem somente de inteligência e racionalidade, vive o movimento civil organizado e àquela era uma típica situação que somente com sorte, me livraria dos “carinhos” que “os homem” (a pronuncia correta desta gíria é “ozzomem”), faziam com ativistas de qualquer espécie e segmento social.
Naquela época, era suficiente se opor ao poder para sofrer conseqüências das mais diversas, tanto físicas, quanto emocionais, que deixavam marcas incuráveis no corpo e na mente do torturado. Obviamente, que o torturador também sentia o impacto, mas, este era um funcionário público e seguia ordens. Esforcei-me para retornar ao que o telejornal mostrava. Minha mente se dividia entre lembranças passadas e fragmentos da realidade presente. Por algum motivo não conseguia deixar de pensar simultaneamente no que assistia na TV e em minha estória de vida como líder estudantil. Tento passar um pouco desta experiência na universidade. Penso que o resgate de alguns valores éticos e morais que herdamos de nossos pais e avós pode servir de plataforma cívica e solidária na Era da Informação.
Acredito que o movimento estudantil, assim como os demais movimentos sociais brasileiros, principalmente, pelas condições objetivas do país que se vive, se deixou “calar” pela sociedade de consumo e perdeu a coerência e civilidade, não por ausência destes princípios, mas, pelo desgoverno corporativo dos representantes no povo no poder e das lideranças sociais, tombando o movimento para a violência ativista, tal como assistimos, também na TV, o violento movimento da “mimada” juventude francesa para mudar a ex-lei do primeiro emprego. Os “carinhos” que eu recebia da polícia, não eram agradáveis e na maior parte das vezes, eu ficava machucado fisicamente e procurava esconder de meus pais. Havia uma paixão política, ideológica, uma ética social que amparava a ação ativista do movimento estudantil que participava.
A convivência no movimento se propagava em outras dimensões de minha vida, chegando a influenciar desde o macro sistema ideológico, até as ações do cotidiano. A educação familiar que recebi foi pautada pela ética grupal e moralidade individual, como princípios que orientavam meus momentos de solidão diante das decisões difíceis, fosse do movimento estudantil ou particularidades. Hoje, minha vida segue nesta direção, agregada de argumentos científicos e teóricos que embasam a paixão política e o melhor uso das informações. A postura e a atitude de cada um orienta o emprego virtuoso das informações na vida social, contornando o sofrimento e as frustrações.
Nossa memória genética registra tanta informação que seria preciso mais tempo de vida para associar racionalmente uma parte maior de cada uma destas informações. Uma tarefa inatingível quanto à mensuração da qualidade sobre os dados que possuímos em nosso cérebro. O jornalista começava a mostrar a reportagem na TV e eu recobrei minha memória recente. A