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Doutor e Mestre pela PUC-SP. Cientista Social. Psicopedagogo, Psicanalista lacaniano e coordenador de Grupo Operativo. Autor de diversos livros, entre eles: Cidade Digital - Infoinclusão Social e Tecnologia em Rede, pela editora Senac-SP (2006).
A rede pode viciar quem se encontra com poucas opções de afazeres. Claro, refiro-me ao universo de doze milhões de brasileiros que mensalmente navegam em média dezoito horas no ciberespaço, conforme os indicadores de janeiro de 2006 (Ibope/netRatings), que você pode acompanhar no site do Comitê Gestor da Internet no Brasil (http://www.nic.br/indicadores). Liguei o computador e aguardei alguns instantes até que o sistema operacional rodasse normalmente, às vezes demora um pouco. Enquanto aguardava, procurei folhear a revista semanal e ler àquelas notícias rápidas. Nossa quanta propaganda, pensei silenciosamente. Em 130 páginas da revista (12.04.2006), vendida por R$ 9,90, existiam 53 páginas, mais de 40%, com propagandas diversas de empresas, governo e outros segmentos. O consumidor deveria ter um desconto na mesma proporção no valor da revista, assim, talvez teríamos um público maior de leitores.
Digitei minha senha na página do e-mail gratuito e rapidamente abriu a caixa postal. Que bom! O provedor está trabalhando, já que em cerca de vinte acessos que faço no mês, em média quatro vezes meu provedor não responde. Qualquer dia mudo de provedor. Comecei a deletar as mensagens de grupos de discussão. Existiam 148 mensagens não lidas; Dessas, 62 eram dos grupos de discussão e de spam, um pouco mais de 40% do universo de mensagens. Existe algo em comum com as propagandas veiculadas pela revista semanal?
Minha sensação é que o mundo virou um grande mercado. Parece que os outros segmentos sociais perdem cada vez mais espaço na concorrência injusta com o dinheiro. Existem ocasiões que me pergunto se vale à pena insistir nas teses de desenvolvimento cultural, empreendedorismo, educação e ecologia, como me apresenta na orelha do livro Cidade Digital – Infoinclusão Social e Tecnologia em Rede (2006), o economista e colega Gilson Schwartz, diretor do projeto Cidade do Conhecimento da USP (http://www.cidade.usp.br). Como cientista social, sou insistente nesta abordagem por valorizar a identidade e a memória do povo, além de reconhecer o esforço de estudiosos sobre o impacto das novas tecnologias na vida do cidadão.
O autor americano Neil Postman (1931-2003), por exemplo, no oitavo capítulo da sexta edição brasileira do livro Tecnopólio (São Paulo: Nobel, 1994), aponta que as tecnologias são invisíveis, uma vez que trata das conseqüências e do impacto do progresso tecnológico e não necessariamente da evolução inovadora e inventiva dos meios técnicos que auxiliam o bem estar humano. Esta visão remete o autor para analisar a influência tecnológica na língua falada e escrita. Postman afirma na página 129 que “o idioma é pura ideologia e o instrumento ideológico mais poderoso é a tecnologia da própria língua”.
Quando deletava as correntes e discussões estéreis, piadas pouco criativas e sem vida, propagandas comerciais, enfim, cerca dos 47% do lixo que circula na internet estava no meu e-mail. Abri uma das mensagens que me chamou a atenção. Comecei a ler o seguinte: “Eae prof, tdo lgal? Faltei na facu pq tava trampando. Poço entgar na px aula o trabalho?”. Se estiver se perguntando o que é isto, provavelmente, está com mais de trinta anos de idade. Por outro lado, se conseguiu compreender a mensagem diretamente, sem questionar o que leu, você deve estar com menos de trinta anos. N