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Doutor e Mestre pela PUC-SP. Cientista Social. Psicopedagogo, Psicanalista lacaniano e coordenador de Grupo Operativo. Autor de diversos livros, entre eles: Cidade Digital - Infoinclusão Social e Tecnologia em Rede, pela editora Senac-SP (2006).
O olhar das pessoas era desconfiado e expressava medo de algo que poderia vir de qualquer lugar ou de qualquer um. Nunca tinha visto nada igual nos últimos vinte anos. Era um pouco similar na ocasião em que eu e outros colegas do movimento estudantil enfrentamos a polícia em uma atitude de desobediência civil ao regime e quando os policiais, com seus cavalos adestrados e seus cães treinados para inibir qualquer desordem, vieram para cima do movimento, naquela tarde de 1980, em Belém. Via no rosto jovem um susto declarado ao objeto concreto do medo: não ser pisoteado ou mordido pelos animais . Na segunda feira, após o dia das mães de maio de 2006, na cidade de São Paulo, as pessoas estavam desconfiadas. Era um fenômeno que não se mostrava, mas, estava no ar, em rede e qualquer um poderia ser vítima.
Os canais de televisão, o rádio, os carros frenéticos da polícia militar circulando em alta velocidade e os “funcionários da segurança” caminhando com arma em punho, todos esperando um ataque surpresa. A tensão estava nas ruas. São Paulo ficou sitiada pela violência escondida que se manifestava de muitas formas e intensidade. A rede urbana mostrava sua outra face. Policiais civis, militares e o corpo de bombeiros eram vitimados em confronto ou simplesmente executados pela rede criminosa. O clima de guerra entre forças contrárias formava seu palco e o chamado “crime organizado” que se intitulou como PCC – Primeiro Comando da Capital, denunciava a desorganização e o destrato com as políticas públicas de educação, emprego, cultura, esportes, inclusão social e segurança. Esta última teve seus investimentos reduzidos em 40% entre 2002 e 2005, segundo o Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal – SIAFI.
Observava cuidadoso o movimento pela cidade, enquanto me dirigia para Santos. Antes de entrar na rodovia dos Imigrantes, percebi a fumaça preta ao longe e o cheiro forte de borracha queimada impregnava o ar. Depois fiquei sabendo que se tratava de um ônibus que havia sido incendiado por ação dos criminosos. Felizmente, tiveram o bom senso de deixar sair os passageiros, antes de atear fogo no veículo. Sempre achei que “polícia-ladrão” era somente uma brincadeira de minha infância, mas, estava enganado.
Na obra Fim de Milênio (São Paulo: Paz e Terra, 2000, 2a edição), Manuel Castells alerta para a globalização organizacional do crime que movimenta, segundo estimativas da Organização das Nações Unidas, cerca de US$ 500 bilhões de dólares “lavados” no mercado financeiro mundial. Com tanto dinheiro, as facções criminosas formam gangues urbanas bem aparelhadas e providas com armas de última geração que “encantam” e “seduzem” os adolescentes “teleguiados” pela exclusão social.
A questão não é de hoje, pode ser de foro local, mas, a importância é global, como mostra a reportagem de Renato Lombardi, no jornal “O Estado de São Paulo” (06.05.2002), alertando que segundo levantamento feito pelo Tribunal de Alçada Criminal (Tacrim), em São Paulo, tendo como base os “processos instaurados entre 1991 a 1999, revelou que o jovem entre 19 e 21 anos está envolvido com crimes contra o patrimônio, respondendo por 63% dos furtos e 69% dos roubos”. Parece que o óbvio, não é tão óbvio assim.
A universidade estava fechada com grades e cadeados nas portas quando cheguei. O m