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Doutor e Mestre pela PUC-SP. Cientista Social. Psicopedagogo, Psicanalista lacaniano e coordenador de Grupo Operativo. Autor de diversos livros, entre eles: Cidade Digital - Infoinclusão Social e Tecnologia em Rede, pela editora Senac-SP (2006).
O elevador chegou no térreo. Além do porteiro que estava em seu posto, havia um visitante. Não tive dúvidas fui em direção a ele com passos firmes, mas, defensivamente. O oficial de justiça não olhou em meus olhos, abriu uma folha de papel com timbre do Poder Judiciário e me perguntou se reconhecia o nome que estava ali escrito. Peguei o papel de suas mãos e li o texto na íntegra. Pediu que assinasse o documento e informou sobre os procedimentos que deveriam ocorrer a partir do comunicado. Informou que não seria preciso constituir advogado, pois, a defensoria pública faria a defesa. Agradeci e voltei direto para o elevador, sem olhar para os lados, não saberia dizer se fiquei envergonhado, magoado, culpado sem cometer crime algum ou irritado por ter que atender o oficial de justiça, exatamente na hora em que a seleção brasileira faria seu jogo contra o Japão, na Copa do Mundo de 2006.
No elevador, enquanto relia o documento, tentava entender o que levou àquele adolescente de 16 anos pegar uma arma de fogo e junto com dois adultos, entrar em um estabelecimento comercial, render os proprietários e anunciar o assalto. Meu estado de espírito era confusional. Qual deve ser o papel de um profissional que trabalha com a questão social em uma sociedade como a brasileira? As palavras poluíam minha cabeça de significados e nada me deixava mais tranqüilo.
Cheguei na cela em que o adolescente estava revoltado. Não sabia dimensionar com segurança o equilíbrio entre a autoridade do diálogo que deveria refletir com o jovem e a rotina do antidiálogo que a Instituição legitimava naquele momento. O jovem estava com o braço apertando a cabeça do educador na ala de segurança nível dois, celas para quem tinha desvio de conduta social com violência física e porte de arma de fogo, com ou sem maiores conseqüências. Os olhos do educador expressavam pavor e apelo de ajuda. Qualquer alteração de humor poderia ser fatal para ambos. Pedi com autoridade que o adolescente se acalmasse e lembrasse que qualquer atitude de violência seria prejudicial para o destino dele ali. Já sem recursos de argumento e convencimento, me ofereci para ficar no lugar do técnico.
A condição gerencial pedia que acalmasse o jovem e o confortasse quanto ao desenrolar da situação. Depois de muito diálogo e assegurar que as reivindicações seriam atendidas dentro do possível e que não haveria repreensão ou excessos à atitude, o jovem decidiu fazer a troca do educador por mim. Procurando não demonstrar medo ou descontrole sobre a situação, pedi aos demais educadores, mesmo contra a vontade deles, que me deixassem sozinho com o adolescente. O recurso ao meu alcance era o preparo profissional e a sensibilidade social para resolver o problema. Comecei a dialogar com o adolescente fazendo-o recobrar a memória institucional mais recente e seus avanços comportamentais. Em minha cabeça, procurava reforçar o fato de que estava diante de uma criança que teve pouco recurso para se desenvolver como ser humano. Aos poucos ele foi ficando mais calmo e recobrando o equilíbrio emocional. Dirigi-me com maior firmeza, chamando-o pelo nome, falei que não era seu inimigo e que o papel educativo da Instituição podia ajudá-lo, caso fosse esse o seu desejo e decisão.
Comecei a falar sobre a história do pedagogo ucraniano Anton Séménovitch Makarenko, autor de Poema Pedagógico (São Paulo: editora 34, 2005), que narra a experiência vivida na Colônia Gorki, in