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Doutor e Mestre pela PUC-SP. Cientista Social. Psicopedagogo, Psicanalista lacaniano e coordenador de Grupo Operativo. Autor de diversos livros, entre eles: Cidade Digital - Infoinclusão Social e Tecnologia em Rede, pela editora Senac-SP (2006).
Após aguardar alguns minutos o taxi chegou para me transportar do bairro ponta da praia aonde resido até o bairro da Vila Mathias, local da Universidade, na cidade de Santos, litoral sul do Estado de São Paulo. O trajeto feito em meu jeep willys 1983, demora no máximo 25 minutos, em um carro convencional não ultrapassa 15 minutos, mesmo com trânsito. Estava no horário e o público de minha conferência já me aguardava naquele evento de tecnologia, na Universidade.
Entrei no taxi e informei ao condutor meu destino. O taxista colocou o veiculo em andamento, mas, algo não estava correto, o veículo se dirigia para o lado oposto ao que comumente eu fazia; Então, sem titubear, questionei para onde o motorista me levava. Nem sei se me escutou, o fato é que ele respondeu: “vou para o local que o senhor me indicou”. “Ah, tá, mas, o senhor não devia fazer o retorno e ir em direção contrária?”, perguntei em forma de afirmação imperativa. Ele voltou a dizer: “o caminho é o mesmo, é a mesma distância”. Respondi, “ok, sempre vou de taxi e o valor máximo que pago até a universidade não ultrapassa dezenove reais, se der mais que isto o senhor paga o restante”. Ele me pediu para ficar tranqüilo e disse que no seu equipamento eletrônico estava informando o melhor caminho a ser seguido. Eu disse, “exatamente, informando, mas, o senhor é que resolve o que é melhor, não a máquina”. Acho que estava invisível no veículo.
A dependência tecnológica será cada vez maior e dentro de dez anos serão mais de sete trilhões de equipamentos eletrônicos interligados em rede, fornecendo informações em tempo real, com monitoramento remoto, a partir de um espaço de processamento e armazenamento de dados, informações e conhecimento que não dependerá de uma única máquina, mas, será um conjunto de múltiplas funções e objetivos, sem fronteira, capaz de formar um espectro digital nunca antes imaginado pela mente humana, com cobertura sem fio que controlará cada metro quadrado do Planeta Terra e de nossas vidas. Será arriscado, mas, também, será fascinante. Atingiremos a segunda dimensão dos avanços em tecnologia digital de comunicação.
Comunicar-se será mais que um meio técnico que serve de recurso ou simplesmente estar conectado, mas, uma travessia energética que fará sinapses inteligentes, tomará decisões simples sobre segurança humana, patrimonial e de utilidade pública. A comunicação será parte de nossa bio-funcionalidade orgânica no ambiente que estaremos no momento e atenderá nossas necessidades sob demanda e, como maximizará nossos sentidos, servirá como sensor de alerta aos fatores ambientais que ameaçarão à vida humana.
Quando atingirmos a dimensão três desses avanços técnicos, seremos “cuidados” em nossos hábitos, comportamentos, dúvidas de aprendizagem, conhecimento e memórias existenciais que farão associações multiestatísticas complexas, com a precisão cirúrgica poli-dimensional dos metadados neuro-artificiais que serão refratários ao nosso estado de espírito do momento e que orientarão nossas decisões imediatas sem colocar em risco nossa integridade ou saúde.
As máquinas estarão ligadas a nós como fontes energéticas sensoriais que funcionarão ao comando de nossas ondas cerebrais ou energia pulsional. Funções humanas comprometidas por acidentes ou geneticamente, serão substituídas por membros neuro-eletrônicos comandados por nossa inteligência cêntrica e no lapso desta, entrará em operação uma inteligência global hipersensível a diversidade social. O risco da dependência tecnológica ou a tecnofobia serão temas difusos dos novos comportamentos humanos e da ética na Sociedade em Rede.
Esta evolução da Internet como se conhece atualmente será uma espécie de hiper-rede holográfica, refratária e inteligente, possibilitando que qualquer pessoa possa acessar globalmente de qualquer lugar, simplesmente com um conector eletrônico, como o celular ou o GPS, por exemplo, que serão aparelhos descartáveis nas próximas décadas.
O ciberespaço que hoje é a expressão dos mais de 1,5 bilhão de equipamentos ligados, na próxima década será, como o John McCarthy, especialista em inteligência artificial e professor do MIT – Instituto de Tecnologia de Massachussetts sinalizou, uma Cloud computing (Computação em Nuvem) que transformará todos os equipamentos eletrônicos em pontos de presença, ou melhor, em portas de acesso à Cidade Rede ou Netrópoles, o futuro da Cidade Digital.
Percebia que o condutor seguia a orientação da seta indicada em seu GPS – Global Positioning System ou em português, Sistema de Posicionamento Global, que orienta o navegador, no caso o taxista, a sair de um ponto A qualquer e chegar a seu destino no ponto B, na menor distância possível, sem ser em linha reta, claro, para tanto, o sistema usa mapas que possibilitam uma visão geral da área que está percorrendo. Como define a Wikipédia.com é “um sistema de informação eletrônico que fornece via rádio a um aparelho receptor móvel a posição do mesmo com referencia as coordenadas terrestres”. Digamos que o GPS, comparativamente, seja uma bússola eletrônica.
Atenção: o GPS não é um sistema de navegação como popularmente se compreendeu, mas, um sistema de orientação geográfica que fornece informação por satélite e permite a tomada de decisão por seu usuário. O GPS não decide o melhor caminho a ser seguido, mas, orienta o condutor e supre informação sobre o rumo a ser seguido; Quer dizer, pelo menos por ora, uma vez que as informações geradas não são em tempo real, neste caso, se ocorrer um acidente no percurso que obstrua a passagem, o GPS não será capaz de identificar, mas, somente o condutor.
O taxista conduzia o veículo e a cada parada em um cruzamento ou semáforo, consultava deslumbrado o seu “brinquedinho novo”, foi assim que perguntei para ele. Ele respondeu: “Então, o meu filho me deu de presente”. Perguntei se ele havia nascido em Santos e ele me respondeu afirmativamente, completando ainda, “e acho que vou morrer aqui mesmo”. Questionei em seguida: “Há quanto tempo o senhor trabalha na praça?”, ele comentou que era taxista desde que se aposentou como portuário. Falou que carregava e descarregava grandes navios cargueiros que aportavam no maior porto da América Latina, líder brasileiro em movimentação de contêineres.
Com os olhos divididos entre o visor do GPS e a movimentação do caminho, não estava interessado em falar nada, mas, em compreender como era possível aquele ponto verde ir se movimentando na tela do GPS conforme ele avançava com o veículo. Mais que isto, o ponto verde era seu veículo em movimento que era monitorado por um potente sistema que o localizava em terra, a partir de um receptor eletrônico de sinal que ao identificar remetia o sinal de volta para a base que por sua vez, mostrava no visor, era muito para a cabeça daquele septuagenário senhor que saiu do trabalho portuário para o banco de um taxi.
Permiti-me ser conduzido por “aquela criança grande com brinquedo novo”. Seu deslumbre com a tecnologia era tamanho que seria uma violência de minha parte ter outro procedimento, afinal, que era minha palestra sobre Cidade Digital diante daquela situação inusitada para minha observação e olhar ciber-social? Chegamos a meu destino com 5 minutos a mais e o taxímetro marcou R$ 23 reais. O taxista me olhou com um sorriso, tipo, o senhor estava com a razão, e falou: “o senhor pode me pagar somente R$ 20 reais”. Peguei minha carteira e entreguei R$ 25 reais para ele e falei apenas: “Obrigado, pode ficar como troco”. Ele agradeceu e ao mesmo tempo ficou surpreso com minha atitude. Desci do carro e pensei: “O que são R$ 25 reais por esta viagem na nuvem sensorial de inteligência que fizemos?”.